NAÇÕES EM RUÍNA: O VISCONDE DE TAUNAY E VOLNEY
Maria Lídia Lichtscheidl Maretti – UNESP - Assis
O objetivo de minha pesquisa é o estudo da incorporação e da exploração da imagem das ruínas no pensamento romântico do Visconde de Taunay (1843-1899), a partir da observação da influência “confessa” exercida pelo livro Les Ruines ou méditations sur les révolutions des empires (1791), do escritor francês Volney (1757-1820). Há pelo menos dois momentos da extensa obra do Visconde em que podem ser constatadas menções ao pensador do século XVIII. Volney é rapidamente citado nas Memórias de Taunay, publicadas postumamente em 1948 e escritas nos anos 90 do século XIX. A citação rápida encontra-se em meio ao relato da gentil hospedagem feita, em Mato Grosso, ao então soldado do exército brasileiro, durante a viagem bélica ao Paraguai:
Com verdadeiro pesar saímos daquela hospitaleira vivenda, cujo proprietário era um espírito livre e só me citava As Ruínas de Volney e as obras do barão de Holbach. Conversávamos, uma feita, com animação e pus-me a rebater-lhe as opiniões materialistas e irreligiosas. De repente, por trás da parede interna que ia até ao teto, ergueu-se uma voz de mulher: ‘Deus abençoe a quem fala assim. Sem dúvida é algum padre. Convença, meu rico senhor, este homem de que deve acabar com as suas heresias!’
O Carvalho abaixou a cabeça e disse com ar risonho: ‘- É a minha companheira, pobrezinha, tem um medo que se pela das minhas idéias, e é devota dos quatro costados para ver se salva a si e a mim! (TAUNAY, 1960, p. 193)
O episódio, na sua flagrante banalidade, e apesar do prosaísmo da situação (ou, talvez, justamente por causa dele), esclarece o grau de subversão da ordem religiosa que representavam as idéias de Volney, bem como o seu grau de penetração. A oposição religião versus materialismo fica clara no diálogo e é justamente o escritor francês um dos mencionados para justificar o “espírito livre” e as “heresias” do sagaz interlocutor.
O mesmo livro de Volney é uma das obras francesas do século XVIII mencionadas en passant no célebre romance Inocência, de 1872, do mesmo Visconde de Taunay. No capítulo III deste romance, o narrador interrompe subitamente a seqüência da narrativa para recuperar, num movimento retrospectivo, de flasback, a história pregressa de Cirino, o enamorado de Inocência. Por ora, basta sublinhar o “pesado gracejo póstumo” feito pelo padrinho de Cirino aos padres do Colégio do Caraça, aos quais ele havia legado uma biblioteca cujo acervo era formado exclusivamente de autores anticlericais e antireligiosos. Ora, esses padres haviam esperado impacientemente um legado muito diferente: justamente um pagamento vultuoso pelos longos anos de estudo de Cirino no Colégio. Os nomes de Volney, Voltaire, Pigault-Lebrun, Parny e do Marquês de Sade, dentre outros, se apresentam de forma incisiva, de maneira a assinalar a irreverência do testamento. Tal particularidade atribuída à biblioteca, ou seja, o seu valor de legado ou de herança sugere uma vontade velada, ainda que abortada, de testemunhar a assimilação cultural, em solos brasileiros, desta perspectiva anticlerical própria à filosofia iluminista do século XVIII francês[1].
Mas o que se pode constatar na leitura do livro Les Ruines? Trata-se, bem sucintamente, de um diálogo estabelecido entre um narrador-viajante e o Gênio encontrado em meio às ruínas de Palmira, na Síria. Este ser, uma entidade sobrenatural dotada de poderes mágicos e que conhece toda a história humana, aparece diante do narrador em meio às suas reflexões histórico-filosóficas, alimentadas pelas ruínas. O propósito da aparição é o de revelar a causa da decadência dos Estados e mostrar o futuro brilhante que a aposta na ciência e na razão poderia trazer à humanidade. O Gênio aponta a tirania, a desigualdade social, as intrigas religiosas, as superstições, o fanatismo e o dogmatismo como causas inegáveis do declínio das grandes civilizações. A importância histórica de Volney vem sendo reconhecida hoje pela crítica e pode ser explicada pelo caráter exemplar de seu trabalho, fruto de uma tendência cara aos últimos anos do século XVIII: a atração pré-romântica pelos lugares que suscitam o devaneio e a melancolia.
O tema da ruína é, como sabemos, muito caro ao Romantismo. A expressão da melancolia enquanto pathos suscitado por este tipo de imagem liga o homem à história, a um passado que encontra desse modo uma condição plástica de ressurgimento. O efeito retrospectivo resultante revela nuances nostálgicas que acentuam a importância do passado para a perspectiva romântica. A ruína enquanto imagem é portanto considerada a partir do alcance simbólico que se pode – ou se pôde – atribuir-lhe.
Vejamos, a título ilustrativo, a intensidade do investimento poético de Volney em uma de suas muitas descrições das ruínas:
Aqui, eu disse a mim mesmo, aqui floresceu antigamente uma cidade opulenta: aqui foi a sede de um império poderoso. Sim! Estes lugares agora tão desertos, outrora uma multidão viva animava as suas muralhas; um povo ativo circulava nestas estradas hoje solitárias. Nestes muros onde reina um morno silêncio, ressoava sem cessar o fragor das artes e os gritos de alegria e de festa: estes mármores amontoados formavam palácios regulares; estas colunas caídas ornavam a majestade dos templos; estas galerias desmoronadas desenhavam as praças públicas. Ali, para os deveres respeitáveis de seu culto, para os cuidados notáveis de sua subsistência, afluía um povo numeroso: lá, um investimento criativo de prazeres atraía as riquezas de todos os climas, (...) E agora, eis o que subsiste desta cidade poderosa, um lúgubre esqueleto! Eis o que resta de um vasto domínio, uma lembrança obscura e vã! Ao movimento estrepitoso que se formava sob estes pórticos sucedeu uma solidão mortal. O silêncio dos túmulos substituiu o murmúrio das praças públicas. A opulência de um centro de comércio se transformou numa pobreza hedionda. Os palácios dos reis se tornaram o covil de animais ferozes; os rebanhos se instalam na soleira dos templos, e os répteis imundos habitam os santuários dos deuses!... Ah! como se pôde eclipsar tanta glória!... Como se pôde aniquilar tantos trabalhos!... É assim, então, que perecem as obras humanas?! É assim que desaparecem os impérios e as nações?! (VOLNEY, 1871, p. 6-7, tradução minha)
O tom de lamento e de nostalgia que se pode observar no trecho – e que lhe confere uma intensidade poética notável – é obtido graças a recursos retóricos precisos. A enumeração exaustiva das coisas vistas por este eu-observador e que se acumulam uma após a outra, o ritmo produzido pela enumeração mesma e por algumas rimas colocadas em lugares determinados, uma alternância de tempos verbais que opõe estrategicamente o passado ao presente, uma outra oposição que se faz a partir de adjetivos que evocam seja a vida ativa, seja a morte impiedosa e, finalmente, uma longa série de exclamações e de interjeições - eis os recursos que asseguram o tom melancólico e o efeito de devaneio que não são propriamente resultados de um trabalho feito ao acaso. Trata-se mais precisamente da descrição de uma ruína que serve a propósitos específicos e que podem ser situados em um momento histórico preciso. Os projetos iluministas franceses justificam o empreendimento poético e compõem a base sobre a qual se constrói esse olhar novo sobre a história humana, com vistas a uma projeção futura, o que explica, aliás, o tom didático que o texto por vezes assume.
Por outro lado, e antes de me deter no modo como Taunay construiu as “suas” ruínas, penso que valeria a pena fazer uma pequena digressão por outros textos, de outros autores, que, dadas as suas várias similitudes, podem ser evocados a partir desta reflexão.
Começo com Walter Benjamin e a sua mais famosa tese sobre a História. Cito a tradução de Sérgio Paulo Rouanet, talvez a mais conhecida entre nós:
Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso. (BENJAMIN, 1985, p. 226).
Dentre as muitas interpretações desta bela e angustiante alegoria da história, as que acentuam a crítica benjaminiana ao historicismo e à social-democracia talvez sejam as que mais satisfatoriamente sugerem um sentido para as ruínas e para o anjo, que me interessam especialmente aqui. As primeiras, como resultado inexorável dos avanços do propalado progresso, e o segundo, em sua impotência arrebatadora, como a imagem plástica da resistência marxista, apesar de toda a força vinda em sentido contrário. Se para Volney as ruínas representam o resultado lamentável de rupturas no percurso linear do progresso, em Benjamin elas são a conseqüência do próprio progresso. Diferentes concepções da história, portanto.
Um segundo texto, agora de Luís Vaz de Camões, apresenta-nos outro tipo de similitude. O episódio da Máquina do Mundo de Os Lusíadas (CAMÕES, 1979, pp. 373-92) nos convida a acompanhar Tétis na sua exposição a Vasco da Gama e aos outros nautas portugueses. Trata-se da visualização do universo a partir de sua versão miniaturizada, usada para dar a conhecer a configuração do mundo, e a sua história, àqueles escolhidos pelos deuses para construir um império. Eis como a deusa começa a sua exposição a Gama:
‘- Faz-te mercê, barão, a Sapiência
Suprema de co’os olhos corporais
Veres o que não pode a vã ciência
Dos errados e míseros mortais.
Segue-me firme e forte, com prudência,
Por este monte espesso, tu co’os mais.’
Assi lhe diz, e o guia por um mato
Árduo, difícil, duro a humano trato.
(Canto X, estrofe 76)
Guiados também por um ente sobrenatural e, como tal, em posição privilegiada, os portugueses, que não visualizam ruínas, assumem a perspectiva histórico-projetiva do imperialista. Portanto, mais uma outra concepção da história.
O terceiro texto é o VII capítulo de Memórias póstumas de Brás Cubas, aquele intitulado “O Delírio”, no qual o autor-defunto narra o que se passou em sua mente “durante uns vinte a trinta minutos”, um pouco antes de morrer. Ainda que em posição semelhante às anteriores, dado que guiado por uma entidade sobrenatural chamada Natureza ou Pandora e levado a ver a história se desenrolar aos seus olhos, há algo que o distingue: não há ilusão de salvação para o homem. Nem a ciência, nem a religião puderam ou poderão apresentar saídas redentoras ou libertadoras. Observe-se a força do ceticismo neste trecho do capítulo:
Imagina tu, leitor, uma redução dos séculos, e um desfilar de todos eles, as raças todas, todas as paixões, o tumulto dos impérios, a guerra dos apetites e dos ódios, a destruição recíproca dos seres e das coisas. Tal era o espetáculo, acerbo e curioso espetáculo. A história do homem e da Terra tinha assim uma intensidade que lhe não podiam dar nem a imaginação nem a ciência, porque a ciência é mais lenta e a imaginação mais vaga, enquanto que o que eu ali via era a condensação viva de todos os tempos. Para descrevê-la seria preciso fixar o relâmpago. (...) Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das cousas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com a agulha da imaginação; e essa figura, - nada menos que a quimera da felicidade, - ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia no peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão. (MACHADO DE ASSIS, 1979, pp. 522-3)
Destes exemplos todos, o que se pode constatar é um emprego recorrente, quase compondo uma tradição, de recursos simbólicos e alegóricos para a expressão de como se concebe a história. Seja através do Gênio, ou do Anjo, da deusa grega, ou mesmo da própria Natureza (com a devida maiúscula), grandes escritores se preocuparam em revelar a sua visão histórica da História.
Voltando ao nosso Visconde de Taunay, pode-se dizer que a exploração das ruínas é com efeito relativamente freqüente em sua obra. Seu livro A cidade do ouro e das ruínas, de 1891, que conta a história de uma cidade abandonada no interior do Brasil, é um dos exemplos mais surpreendentes e belos. Vejamos um trecho de uma carta[2] reproduzida neste livro:
É de uma das salas do palácio deserto dos antigos capitães gerais de Mato Grosso que eu lhes escrevo, destas salas imensas que foram testemunhas das festas de uma corte muito assídua junto aos depositários da autoridade real, e que agora só repetem o surdo murmúrio do inseto que rói as suas madeiras, só o barulho dos passos do curioso que percorre o seu interior. Tudo ficou no mesmo estado, desde que a sede do governo foi transferida para Cuiabá; o mobiliário, as pinturas, os armários, as mesas; tudo ficou aqui. Os corredores estão repletos de mato: vêem-se por todo lado as marcas destrutivas do abandono e o combate das coisas contra o tempo. Tudo reproduz a imagem da morte. (...) Nada estava aberto; havia um cheiro de lugar fechado que, juntamente com a obscuridade, produzia uma sensação absolutamente singular e poética, a do herdeiro que vem tomar posse da casa de seus antepassados. Cada passo provocava um eco, que o repetia. (TAUNAY, 1923, p. 27-28, tradução minha)
Quando, em 1891, este livro aparece, outras localidades da província de Mato Grosso, por exemplo, já haviam sido objeto do registro das ruínas “construídas” pela guerra contra o Paraguai. O livro A Retirada da Laguna, de 1871, já assinalava:
Estava Miranda em ruínas quando nossas forças ali entraram. Ao partirem haviam-na os paraguaios incendiado. Ardera parte das construções, mas eram evidentes os sinais de decadência, anterior [sic] ao incêndio que sucedera à primeira fase de desenvolvimento e prosperidade. (...) Fora a vila de Nioac abandonada pelo inimigo a 2 de agosto de 1866. Por toda a parte ali se viam vestígios do incêndio. Poupadas, apenas, duas casas e uma pequena igreja de pitoresca aparência. (...) Esta bonita povoação [trata-se novamente de Nioac], abandonada, ocupada e pela segunda vez, desde o início da guerra, devastada, convertera-se num montão de destroços fumegantes. (TAUNAY, 1975, p. 32, 37 e 134)
O escritor brasileiro percorre, desse modo, as ruínas da Guerra contra o Paraguai e aquelas em que constata projetos frustrados de construção da nação brasileira, no século XIX.
Em ambos os casos, portanto, tanto em Taunay quanto em Volney, a perspectiva adotada instaura um olhar que, sempre em trânsito e eivado de preocupações iluministas, privilegia a imagem da ruína como alegoria representativa da contradição nos processos de formação e/ou queda de nações. Por outro lado, estes dois escritores têm mais uma coisa em comum: ambos são viajantes que consideram, tal como ensina a lição do Iluminismo, a experiência da viagem como uma oportunidade única para o alargamento dos horizontes e a relativização das idéias. Os dois demonstram à exaustão que, enquanto escritores-viajantes, atribuem a si mesmos o papel de descobridores privilegiados, com uma ambição mediadora. Neste sentido, o conhecimento do passado – propiciado pela visão das ruínas – e o conhecimento do estrangeiro – que um viajante atento pode apresentar a seus conterrâneos – devem servir para a edificação de um homem novo, consciente dos erros que o perturbam, livre dos preconceitos e do fanatismo, vistos como frutos da ignorância. Eis os fundamentos do projeto iluminista partilhado, cada um a seu modo e em circunstâncias diferenciadas, e por isso sempre marcados pelas injunções históricas, por Volney e Taunay.
Referências Bibliográficas:
BENJAMIN (1985). Magia e técnica, Arte e política. (trad. de Sérgio Paulo Rouanet). São Paulo: Brasiliense.
CAMÕES, Luís Vaz de (1979). São Paulo: Abril Cultural.
GAGNEBIN, Jeanne-Marie (1982). Benjamin. São Paulo: Brasiliense. (Col. Encanto Radical)
MACHADO DE ASSIS, J. M. (1979). Obra completa / volume 1. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, pp. 520-4.
MADELÉNAT, D. (1994). “Volney C. F.”. In: BEAUMARCHAIS, J.-P. et alli. Dictionnaire des littératures de langue française. (vol. nº 3: M-R). Paris: Bordas, pp. 2647-8.
TAUNAY, Visconde de (1923). A cidade do ouro e das ruínas. 2 ed. São Paulo: Melhoramentos.
TAUNAY, Visconde de (1975). A Retirada da Laguna. (trad. de Affonso d’Escragnolle Taunay) 18 ed. São Paulo: Melhoramentos.
VOLNEY (1871). Les ruines ou méditations sur les révolutions des empires. Paris: Garnier.
[1] Outras possíveis implicações e conseqüências desse curioso episódio do romance Inocência são desenvolvidas em outro texto meu, intitulado "A título de recordação saudosa (às voltas com o anticlericalismo do Visconde de Taunay)", ainda inédito.
[2] Trata-se de carta enviada à família Taunay, da cidade de Vila Bela, antiga capital da província de Mato Grosso, por um tio do Visconde (Aimé Adrien Taunay) que por ali viajava como membro da famosa Expedição Langsdorff, em 1825.